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27.08.2011
Por Diego Max, que é viciado em café e internet, chato por opção, músico/produtor de quarto e editor/independente.
Pesquisar, digitar, recortar, colar, diagramar, copiar, montar, dobrar, distribuir. Isso pode parecer algo muito simples quando se tem por perto um computador conectado á internet e uma impressora. Porém até a metade da década de 1990 para realizar essa tarefa era necessário ter alguns contatos, máquina de escrever, lápis, canetinha, tesoura, cola, dinheiro, grampeador e muita força de vontade. Assim era a vida dos Fanzineiros do Século Passado que faziam de tudo até burlar a lei para fazer circular uma determinada informação. Simplesmente por estarem fartos de tudo que era padronizado, não ficaram apenas observando e engolindo tudo que aparecia: eles foram lá e fizeram.
Em entrevista Márcio Sno fala sobre suas referências, as dificuldades de colocar o bloco na rua, sobre o documentário “Fanzineiros do Século ” idealizado, coordenado e dirigido pelo mesmo, que aborda e abre um leque pra esse universo maravilhoso sobre punk, fanzines e o do it yourself .
O inicio:
Em 1993. Eu era um assíduo leitor de revistas de rock e histórias em quadrinhos. Gostava muito da seção onde tinha anúncios de bandas, como a famigerada “Headbanger Voice“, da Rock Brigade. Foi por lá que comecei a quebrar os preconceitos e resolver conhecer bandas que não tocavam nas rádios. Daí em diante, me perdi na correnteza e estou até hoje mergulhado nesse universo.
Primeiros Contatos com fanzines:
Justamente nessas revistas. Eu sempre via anúncios de fanzines nas seções abertas aos leitores. Porém, não sabia do que se tratava. Naquela época não tinha Google pra jogar a palavra “fanzine” e aparecer milhões de páginas. E o que eu fiz? Selecionei alguns endereços de fanzines e escrevi perguntando “como faço pra receber seu fanzine?” botando a maior panca de que já sabia do que se tratava.
Dias depois, recebi um fanzine e descobri que loco o que era. Embora eu não tenha mais o zine, me lembro muito bem dele. Era o Secret Face, feito por uma pessoa chamada Kris K-Bide. O zine não tinha nada demais, além de publicação de releases e resenhas de demos e shows. Mas foi fundamental para despertar meu interesse em fazer zines.
A dificuldade em se comunicar, produzir e até mesmo em se informar – os meios pra isso:
Naquela época, (começo dos anos 90… 92 93) tudo gerava em torno da carta. O acesso a computadores era pra poucos privilegiados e a internet não existia. O correio era a nossa rede social analógica, que movimentava missivas, fanzines, demo-tapes. Tudo era muito demorado, mas era muito eficaz, ao ponto de eu ter contato com pessoas de todos os cantos do Brasil e mundo.
“Não só esse, mas é um dos clássicos o “Sniffing Glue” de Mark Perry é um fanzine que mostra a necessidade da época de um registro, de uma imprensa alternativa, que como outros, deram base pra muita gente produzir. Como você analisa essa evolução em meio as produções em várias vertentes do fanzine.”
Mark Perry representou com seu zine aquilo que contagiou muita gente para produzir fanzines, montar bandas, fazer a coisa acontecer: o tal do Do It Yourself. Que, na verdade, vem bem antes disso, desde quando o primeiro fanzine de ficção científica surgiu, passando pela beatnicks, e outros movimentos de contracultura. Logo, o fanzine foi e é o porta-voz de quem quer se expressar. Justamente pela simplicidade, facilidade de fazer e pela liberdade impregada nessas publicações que a produção cresceu de forma desenfreada. A vontade de mostrar pro mundo suas idéias faz do fanzine uma necessidade.
Dessa vontade de mostrar ao mundo suas idéias nasce o Fanzineiros do Século Passado?
Também. Tive uma idéia remota de fazer algo do tipo na época da faculdade. A minha monografia seria sobre fanzines. Porém, no mesmo ano eu já havia publicado a cartilha Fanzines de Papel e, naquela época, em 2007, o assunto havia esgotado para um TCC para mim, só faria algo ligado ao tema, se fosse um documentário. Mas eu não tinha equipamentos e grana pra realizar isso. A idéia ficou engavetada até eu retomar as pesquisas sobre o tema e descobrir que não havia nenhum registro sobre o tema no Brasil. Fiquei muito indignado, pois achava um absurdo toda essa história ficar apenas na lembrança de quem produziu. Pensando na forma como nosso underground se constituiu e se manteve (via carta) e as dificuldades que tínhamos para lançar e distribuir fanzines (que são exploradas no doc), eu jamais me perdoaria se isso não fosse registrado para nós, para quem nunca produziu e para quem está começando a produzir. Um dia, recebi uma ligação de José Zinerman Nogueira que falou da vontade de registrar isso, e como essa idéia já vinha me perturbando há algum tempo, vi que era a hora de dar o pontapé inicial nessa história toda.
Você entrevistou praticamente toda uma geração de fanzineiros, as histórias tão peculiares, a ideia é deixar um legado sobre o fanzine com aquele gosto nostálgico?
É uma das minhas preocupações era tentar evitar esse papo de velho que fica falando que “na minha época era melhor”, mas, percebi, quando registrava, que não tinha como fugir disso, afinal, era uma época fascinante!
Talvez essa coisa da nostalgia fique mais mesmo nesse primeiro capítulo. Talvez tenha algum resquício no segundo e talvez suma no terceiro, de acordo com um planejamento que acabei de fechar.
Mas a ideia é mesmo registrar toda essa movimentação da produção de fanzines no Brasil. Sei que ao final da série terá milhões de pessoas que irá falar: faltou fulano, faltou cicrano, você não falou disso ou daquilo. E aí fica a minha mensagem desde já: do it yourself você também!
Sobre a “acadêmização”, e “erudição” dos fanzines
Pois é, a cada dia que passa, tem muita gente pesquisando sobre fanzines, em TCCs de faculdades de comunicação e educação. Percebo isso pelo monte de gente que me procura para buscar informações.
Dá muito orgulho ver pessoas pesquisando algo do que você fez e faz parte. Saber que aquela rebeldia conduzida pelos movimentos de contracultura, tendo o punk como referência máxima, é uma vitória da resistência e da atitude subversiva! É de arrepiar!
Embora tenhamos ainda poucas publicações nacionais sobre o tema, comparando-se a gama de livros lançados no exterior, temos pelo menos 10 títulos sobre o tema, que mostra um bocado dessa história.
Cite algumas referências nacionais e gringas:
O Rebuliço Apaixonante dos Fanzines – Henrique Magalhães
Fanzine – Edgard Guimarães
Almanaque de Fanzines – Bia Albernaz e Mauricio Peltier
Fanzines: Autoria, Subjetividade e Invenção de Si – Organização Cellina Muniz
I Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Independentes da Ugra Press (Douglas Utescher e Leandro Márcio)
Whatcha Mean, What’s a Zine? – The art of making zines and mini-comics – Mark Todd & Esther Pearl Watson
Notes from Underground: Zines and the politics of alternative Culture – Stephen Duncombe
Make a zine: When the words and graphics collide! – Bill Brent and Joe Biel
DIY – The Rise of Lo-Fi Culture – Amy Spencer
Depois do trabalho árduo e de lançamento como você vê o retorno do seu documentário?
De coração: esperava que o pessoal fosse curtir, mas jamais imaginava que ia dar essa repercussão toda! Vejo o doc sendo exibido em diversos lugares pelo Brasil todo, pessoas copiando, distribuindo, exibindo para amigos… Poxa, já tem mais de 1400 views no Vimeo e quase 500 da versão com legendas! Cópias físicas eu distribuí mais de 200. Então, muita gente mesmo viu e está vendo o doc! Sem falar que o retorno é muito positivo. Uns e outros fazem algumas críticas, mas sempre construtivas.
É muito gostoso ver a reação das pessoas quando vou exibir em algum lugar e a forma curiosa como as pessoas conversam comigo após a exibição… É algo mágico que não tem dinheiro que pague!
Acabei de vir de uma tour no Rio de Janeiro e o resultado foi muito positivo e que me deu mais motivação para continuar!
Muitas pessoas também me escrevem do exterior sobre o doc, algumas até dizendo que não sabia que existia produção de zines aqui, vejam vocês! Portanto, o retorno está muito além do esperado!
O que podemos esperar do Márcio Sno nos próximos capítulos?
De mim, continuar esse projeto que será uma trilogia. E manter a idéia do “se ninguém faz, façamos!”, e sem fins lucrativos.
Para os próximos capítulos, já conto com mais parceiros na captação de imagens, como Xan Braz, Law Tissot e mais outros que vão registrar também. Vamos abordar outros temas, como o fanzine como ferramenta pedagógica, o dilema internet X zines, o pessoal que resiste me publicar, o impacto do zine na vida das pessoas, entre outros.
Estou num pique muito bom, e vou até investir em um curso de edição em Final Cut para deixar o doc mais bonito!
Muito Obrigado Márcio pela paciência, disponibilidade e atenção: por favor, suas considerações finais e uma nota aos amantes e novos conhecedores do fanzine
Massa demais, muito obrigado meu caro, agradeço de coração. E a você que nasceu com um computador na sua frente, pode até achar nada a ver essa revistinha xerocada que, por ventura, pode cair em sua mão. Vai fazer aquela cara de nojo, desconfiado…
Não perca a oportunidade de folhear e ler alguma coisa. Pois agindo dessa forma, você estará realizando, pelo menos, 70% do objetivo de um fanzine: ser notado, folheado e lido. Não gostou? Não faz mal. Deixe em algum lugar que alguém pode achar e, de repente, ter sua vida mudada completamente. Assim como foi a minha.
Tags: diogo max, do it yourself, entrevista, fanzine, marcio sno, punk